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    28.6.06

    TRADIÇÃO, MODERNIDADE E NOVOS RUMOS DA IDENTIDADE!
    SALVE JACKSON DO PANDEIRO!

    Um debate freqüente que sempre aparece quando vivemos alguma data significativa do calendário cultural de nossa cidade, é significar termos como cultura, cultura popular, tradição, identidade, valores, e o escambau! Sem querer escrever aqui algum tratado de sociologia, muitas vezes me percebo entre esses termos, buscando como discuti-los no espaço que trabalho, a musica. Inúmeras vezes tenho que ouvir pessoas me agradecendo por “defender a cultura”, “manter viva nossas tradições”, “levar a cultura aos novos ouvidos ou gerações”, e algo bem parecido com tudo isso.

    Eu não defendo nada! Eu não protejo nada! Eu não recupero nada! Eu não resgato nada! Eu apenas optei por realizar um trabalho tendo como base o que eu tenho de hereditariedade, ao mesmo tempo buscando “cruzar”, “combinar”, experimentar, o que eu chamo de acessórios tecnológicos em minha musica. Se isso for modernidade, contemporâneo, atual, é o que estou processando em minha cabeça, e confesso, ainda não cheguei onde quero. Nem perto. Eu sou um processo. Kafka.
    O termo Forró para mim, soa como Jazz, Blues, Rock, Punk e Dub. Possibilita tantas experiências e diversão, que nem imaginamos. Na real, a primeira bem sucedida loucura desse hibridismo, foi o CD “Baião de Vira Mundo”, produzido aqui em Recife pelo selo Candeeiro em parceria com a YBrazilMusic, e tendo como produtores Mauricio Tagliari, Pupilo, Marcelo Soares e Alex Antunes. O resultado é a subversão dos valores tradicionais em novos valores tradicionais “atualizados”. Uma tradicão mestiça com elementos urbanos e tecnológicos, a partir da obra de Luiz Gonzaga. Outro bom exemplo são os Cds de Totonho e os Cabras, esse, com maior nitidez, usa bases eletrônicas e coloca um cobertor de textos bem humorados e “nordestinos” aos Forrós e ramificações.

    Recentemente o critico de musica do Jornal do Commercio José Teles, em várias materias sobre novos CDs lançados em tempo de São João e sobre as programações das cidades do interior, irritou empresários e políticos quando questionou a “qualidade” do que se oferece nesses palcos em nome do Forró, musica tradicional ou Cultura local. O poder do capital de investimento privado, ocupa as prefeituras de várias cidades e ao mesmo tempo as rádios. Essas, as “fazedoras” de massas, uniforme, e sem o mínimo critério de opção. Para mim, o 0x0 fica por conta do espaço virtual que vários trabalhos conseguem ocupar e promover suas propostas, idependente da execução nas rádios locais. E outro ponto, seria as rádios comunitárias em franca ampliação pelas comunidades e periferias.

    A tradição é favorável ao novo. A cultura quando para de se transformar, termina no museu ou em alguma tese de mestrado. E pensando nos constantes movimentos migratórios, o que se cria nas cidades sofre forte presença dos valores que chegam do interior (culinária, moda, arte, cinema, musica). E mesmo compreendendo a força dos signos e símbolos, não se precisa usar chapéus de vaqueiro e gibão para se afirmar uma identidade já diluída na expanção da cultura urbana. E outra coisa, vamos alcançar o tempo que porteira de gado e aboio, vão se projetar via chip implantado na cabeça dos bois. E vai ficar mais fácil de se ter mais tempo pra beber, estudar, e comemorar a vida! Isso sim é subverter . Salve Jackson do Pandeiro!!

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    23.6.06
    OLHA PRO CÉU PRO AMOR!!!!!!!!!!


    23.06.06 EM UMA QUINTA-FEIRA CANTEI COM SEU DOMINGOS, ou, o dia em que vi uma nave pousar no meio do pátio de Caruarú!

    O Mestre Dominguinhos sempre participou de minha vida. Ele vasculhou minha alma pelas ondas curtas da Rádio Planalto de Carpina (Zona da mata Norte de Pernambuco, onde nasci). Cantava com o timbre próximo de Luiz Gonzaga, o chapéu de vaqueiro sempre na cabeça cheia de idéias, e o jeito “desconfiado”, faz dele um espírito luminoso que emana som, simplicidade e genialidade. Um musico completo, uma pessoa especial.

    A vida sempre nos aproximou. Desde um show em Santa Cruz da Baixa Verde, no Sertão úmido próximo a Triunfo e Serra Talhada, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde cantamos juntos o outro Mestre Jackson do Pandeiro, nas canjas que demos na Sala de Reboco, até o sonho realizado no meu último CD
    “Cabeça elétrica, coração acústico”, onde ele tocou na faixa “Disposto a Tudo” , dois acordeons em pleno dialogo mágico, e na faixa “Forró na Gafieira”, cantando e tocando comigo. Dominguinhos deixa a vida melhor.

    Ontem no pátio de eventos de Caruaru, no meio do nosso show, ele entrou, e cantamos juntos “Tenho sede”.Voz e acordeon. Fechando os olhos e cantando, eu fui transportado para um outro mundo, o mundo das harmonias e melodias personificadas por imagens diversas...eram paisagens áridas e verdes, eram porteiras eletrônicas, naves que aterrisavam e decolavam em pleno pátio vermelho de poeira, combinadas com os bois, cabras e riachos. Uma viagem translúcida ao coração acústico do Mestre. Quando eu telefonei pra ele convidando-o para esse momento, ele humildemente falou...”vou sim Silvério, se Deus quiser”.

    E Deus liberou o momento!
    No final, uma chuva de papel descia de surpresa...e foi exatamente nesse momento que vi uma nave descer bem no meio do Pátio! Impressionante como todo aquele público não deu a mínima pra nave! Acho que estão acostumados ao momento que transcende, ao instante que passa e que fotografado nos corações, transforma-se em história. A nave ficou até o fim. O fim da loucura e da lucidez. Em uma quinta-feira, eu cantei com Dominguinhos!

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    13.6.06
    BJORK FAZ DISTANCIA NAS MELODIAS E SOA COMO UM BOM CAFÉ


    PERAMBULANDO E VENDO AS PESSOAS

    Aqui em Nijmegen, Holanda, parece que tudo dá certo. Do recolhimento do lixo tão rápido que nem parece ter lixo nessa cidade, até o comércio repleto de pessoas comprando, como se não houvesse problema econômico. Tudo funcionando bem nessa pequena cidade de pessoas “iguais”, com os emergentes imigrantes presentes em toda parte da Europa.

    Entre os dias 29 e hoje, 3 de junho, passamos por tantas cidades e 3 Países, que a cabeça deu um nó. Orleans, Lille (França), Bruxelles e Antwepean (Bélgica), Utrech e Nijmegen (Holanda), inclusive nosso aeroporto de saída da Europa vai ser por Amsterdan. As pessoas muitas vezes parecem iguais, outras vezes parecem diferentes por grupos de imigrantes, isso confunde definir a qual grupo pertence determinados bairros e pessoas. Aqui em Nijmegen, onde estamos quase saindo para nosso ultimo show da Tour no 22nd Musicmeeting, a predominância de Holandeses é nata.

    A Holanda acaba de empatar com a Austrália em um amistoso equilibrado. A Austrália empatou no segundo tempo com um gol de pênalti, no qual, a bola bateu na trave e de volta bateu nas costas do goleiro da Holanda, ele tentou afastar a bola mas o zagueiro se atrapalhou e o atacante Australiano deu uma bomba pro gol Holandês. Assistimos o jogo no quarto do Fabrício, nosso produtor de Tour.

    Retorno ao Brasil via Lisboa. Hoje é 04 de junho, mas, só sairemos na madrugada do dia 5 via Amsterdam. Eu vou pro Rio de janeiro na quarta feira, fazer parte como convidado de um show no Circo Voador. Ou seja, mais saídas. Acho que só me aquieto na próxima segunda feira.

    Bjork foi nossa trilha várias vezes nas estradas cinzas da Europa. Cds e DVDs ornamentaram nossas vistas, buscando alguma cor em um verão que não chegava naquelas tardes e manhãs de estradas. O café nesses momentos parece um santo que vem atender nossas promessas. E quando vem com aroma de cacau....adoro essas combinações que o café pode oferecer, cacau, leite, e até uma bebida forte entra nesse mundo escuro, árido e suave do café. Café com creme.

    Gling Gló faz parte de um CD que Yuri (guitarrista da banda) encontrou de bobeira na Fnac de Marseille. Bjork cantando com um trio de Jazz da Islanda. Soa maravilhoso, diluente nos ouvidos, mas ao mesmo tempo, mantém minha busca de entender a distancia entre harmonia e melodia que ela faz inocente. O mesmo com a canção Luktar-Gvendur. A vassoura fica arrastando na bateria, feito piaçaba de Vovó no terreiro quente em Carpina. Eu acho que ela canta em Islandês!!!!! O piano é um menino que picota sorrateiro a voz forte e redonda, como uma bola lançada. Já viram as saias que ela usa?

    O meu (re)encontro com o Recife sempre é desprovido de pensamento antigo. Eu sempre chego de viagem pensando no que vai acontecer amanhã, com a paisagem que deixei antes. Se vai ter prédio no lugar da casa ou se alguma banda conhecida da Cidade gravou um novo disco. Enquanto o avião faz a curva entre o Ibura, o Jordão e a Av.Recife, soa no ipod “Overture”, a faixa que abre o Cd "Dancer in the dark", cujo filme, o choro no final parecia inevitável. Depois enquanto o avião aterrisa, o som das máquinas, parece que é de trem, locomotiva, tricota a voz da “doida”, como falava Wilson (Baterista da banda)!
    Conto de fadas urbano.


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